Esta política propõe princípios e regras práticas para o uso ético, transparente e responsável de ferramentas de inteligência artificial (IA) por autores, revisores, editores e equipe editorial da ABC Imagem Cardiovascular. O texto foi elaborado com base em recomendações de organismos internacionais de editoração biomédica, incluindo International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE), Committee on Publication Ethics (COPE), World Association of Medical Editors (WAME), Council of Science Editors (CSE), JAMA Network, BMJ, Nature/Springer Nature e Elsevier.

 

Princípio central:

Ferramentas de IA podem auxiliar o trabalho humano, mas não podem substituir a responsabilidade humana, o julgamento científico, a autoria responsável, a confidencialidade, a integridade da revisão por pares ou a independência editorial.

 

Resumo executivo

Tema Recomendação essencial
Autoria Ferramentas de IA não podem ser autoras, coautoras ou colaboradoras.
Responsabilidade Autores são responsáveis por todo o conteúdo submetido, inclusive partes assistidas por IA.
Transparência Uso substantivo de IA deve ser declarado, incluindo ferramenta, versão, finalidade e etapa do manuscrito ou pesquisa.
Dados clínicos Informações identificáveis ou potencialmente identificáveis de pacientes não devem ser inseridas em ferramentas públicas ou não seguras de IA.
Referências Referências sugeridas por IA devem ser verificadas manualmente em fontes confiáveis; referências falsas constituem violação ética.
Imagens científicas IA não deve alterar imagens ou dados científicos de modo que modifique interpretação, diagnóstico ou evidência.
Revisão por pares Revisores não devem inserir manuscritos confidenciais em ferramentas públicas de IA nem delegar a revisão à IA.
Editores IA pode apoiar fluxos editoriais, mas decisões editoriais devem ser sempre humanas.
Detecção de IA Detectores de texto gerado por IA não devem ser usados como prova isolada de má conduta.

 

1. Finalidade e escopo

A ABC Imagem Cardiovascular reconhece que ferramentas de IA e tecnologias assistidas por IA podem apoiar a escrita científica, a tradução, a edição de linguagem, a análise de dados, a revisão técnica e processos editoriais. Seu uso, entretanto, deve ser transparente, ético, responsável e compatível com os princípios de integridade científica, privacidade de pacientes, confidencialidade, autoria responsável e independência editorial.

Esta política aplica-se a autores, revisores, editores, membros do corpo editorial e equipe editorial. Abrange modelos de linguagem, chatbots, ferramentas de IA generativa, tradutores automáticos, assistentes de escrita, geradores de imagem, assistentes de programação, plataformas de aprendizado de máquina, ferramentas de análise de imagem e recursos de IA integrados a softwares comerciais.

Para fins desta política, consideram-se ferramentas de IA todos os sistemas computacionais capazes de executar, automatizar, apoiar ou ampliar tarefas intelectuais normalmente realizadas por seres humanos, incluindo geração, revisão, tradução, sumarização, classificação, análise, predição, interpretação ou organização de textos, dados, imagens, códigos, áudios ou outros conteúdos científicos.

 

2. Princípio geral norteador da política de IA

A IA pode auxiliar, mas não substituir o trabalho intelectual e ético de pessoas. Todo conteúdo submetido à revista deve permanecer sob responsabilidade integral dos autores humanos. Toda avaliação editorial e decisão de publicação deve permanecer sob responsabilidade de editores humanos qualificados.

 

3. Autoria e responsabilidade

Apenas pessoas podem ser listadas como autoras. Ferramentas de IA, modelos de linguagem, chatbots ou outras tecnologias assistidas por IA não atendem aos critérios de autoria e não devem ser listadas como autores, coautores, colaboradores ou contribuintes.

Todos os autores humanos são responsáveis pela acurácia, originalidade, validade, integridade e interpretação do manuscrito, incluindo texto, dados, figuras, tabelas, referências, código, imagens, material suplementar e conclusões geradas ou assistidas por IA.

Os autores devem revisar criticamente qualquer conteúdo produzido com apoio de IA, verificar informações factuais, confirmar referências, avaliar coerência científica, corrigir vieses ou erros e aprovar a versão final.

 

4. Declaração obrigatória de uso de IA por autores

Autores devem declarar qualquer uso substantivo de IA ou tecnologias assistidas por IA na preparação do manuscrito ou na condução da pesquisa. A declaração deve incluir: nome da ferramenta, versão quando disponível, provedor, finalidade, seção ou etapa em que foi usada e confirmação de revisão humana.

O uso de IA para redação, edição, tradução, resumo ou melhoria de linguagem deve ser declarado nos Agradecimentos ou em uma declaração específica de uso de IA. O uso de IA em coleta de dados, extração de dados, análise estatística, análise de imagem, geração de figuras, programação, modelagem ou qualquer método de pesquisa deve ser descrito na seção Métodos, com detalhes suficientes para avaliação e, quando possível, reprodutibilidade.

 

5. Modelo de declaração para autores

Durante a preparação deste manuscrito, os autores utilizaram [nome da ferramenta, versão e provedor] para [finalidade específica]. Os autores revisaram e editaram o resultado, verificaram a acurácia do conteúdo e assumem responsabilidade integral pela versão final do manuscrito.

Quando a IA fizer parte dos métodos de pesquisa, recomenda-se acrescentar: “A ferramenta foi usada em [extração/análise/modelagem/etc.], com os seguintes parâmetros ou configurações relevantes: [descrever]. Os resultados foram verificados independentemente pelos autores.”

 

6. Usos aceitáveis, condicionais e proi   bidos

Existem situações em que a IA é aceitável; situações em que é possível o seu uso mas há necessidade de adequação do seu uso às diretrizes dos ABC Cardiol, e outras o uso nunca é permitido (figura 1).

Usos geralmente aceitáveis, quando transparentes e supervisionados por humanos, incluem correção gramatical, melhoria de clareza, tradução, formatação, apoio à redação de resumos leigos e auxílio na preparação de checklists editoriais.

Usos condicionais, que exigem descrição detalhada em Métodos e validação adequada, incluem triagem de literatura, extração de dados, análise estatística, geração de código, análise de imagens cardiovasculares, processamento de sinais, classificação automatizada, predição de risco, processamento de linguagem natural e ferramentas de apoio diagnóstico.

Usos proibidos: fabricar dados; gerar referências falsas; criar casos clínicos sintéticos apresentados como reais; produzir imagens científicas falsas; modificar imagens ou dados de modo enganoso; ocultar limitações; gerar conclusões não verificadas; omitir uso substantivo de IA; ou usar IA para burlar critérios de autoria, revisão por pares ou integridade científica.

 

Figura 1 – Diagrama sobre os usos possíveis de IA na ABC Imagem Cardiovascular.

 

7. Referências científicas, plágio e direitos autorais

Ferramentas de IA podem auxiliar na busca inicial de literatura, mas não devem ser citadas como fonte primária de evidência científica. Todas as referências sugeridas por IA devem ser verificadas manualmente em fontes confiáveis, como PubMed, Crossref, SciELO, Web of Science, Scopus ou páginas oficiais dos periódicos.

Referências inventadas, imprecisas ou não verificáveis podem constituir violação grave de ética em publicação, implicando em possibilidade de sanções aos pesquisadores conforme estabelecido na Portaria 2664/2026 de 6 de março de 2026 – Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. O uso de IA não reduz a responsabilidade dos autores por originalidade, citação adequada, permissões, direitos autorais, ausência de plágio e ausência de publicação redundante.

 

8. Privacidade de pacientes e proteção de dados

Autores, revisores, editores e equipe editorial não devem inserir informações identificáveis ou potencialmente identificáveis de pacientes em ferramentas públicas ou não seguras de IA. Isso inclui histórias clínicas, imagens fotográficas de pacientes, ECGs, radiografias, ecocardiogramas, angiografias, tomografias, ressonâncias, PET, SPECT, exames laboratoriais, dados genéticos e descrições clínicas detalhadas.

Qualquer uso de IA com dados em nível individual deve cumprir aprovação ética, consentimento informado quando aplicável, normas institucionais, padrões de anonimização e legislação pertinente de proteção de dados, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

 

9. Imagens, figuras e material gráfico

Ferramentas de IA não devem ser usadas para alterar imagens científicas ou clínicas de forma que modifiquem significado, interpretação, diagnóstico ou evidência. Esta regra aplica-se a toda forma de imagem médica, incluindo fotografias dos pacientes, exames de imagem como os de ecocardiografia, angiografia, tomografia, ressonância magnética, PET, SPECT, patologia, traçados de ECG, mapas eletrofisiológicos e quaisquer outros dados visuais científicos.

Figuras ilustrativas, imagens esquemáticas ou resumos gráficos gerados com apoio de IA podem ser considerados se forem claramente declarados como gerados com uso de IA, e que sejam acurados, não enganosos, livres de violações de direitos autorais e não apresentados como dados clínicos ou experimentais originais. Toda a responsabilidade sobre a autoria do material é dos autores do artigo.

 

10. IA como parte dos métodos de pesquisa

Quando a IA for parte do método científico, e não apenas ferramenta de redação, os autores devem relatar: nome e versão do modelo; tipo de ferramenta; base de treinamento, validação e teste quando aplicável; pré-processamento; variáveis de entrada; métricas de desempenho; calibração; validação interna e externa; tratamento de dados ausentes; avaliação de viéses; o grau de supervisão humana; disponibilidade de código ou modelo quando possível; e o status regulatório da ferramenta, quando aplicável.

Manuscritos que envolvam desenvolvimento, validação ou avaliação clínica de ferramentas de IA devem seguir diretrizes internacionais de relato apropriadas ao desenho do estudo, como CONSORT-AI para ensaios clínicos, SPIRIT-AI para protocolos de ensaios clínicos, TRIPOD+AI para modelos de predição diagnóstica ou prognóstica, CLAIM para IA em imagem médica, STARD-AI para estudos de acurácia diagnóstica e DECIDE-AI para avaliações clínicas iniciais de sistemas de apoio à decisão baseados em IA.

 

11. Viés, equidade e generalização

Estudos envolvendo IA em cardiologia devem discutir riscos de viéses e a potencial capacidade de generalização. Sempre que pertinente e eticamente permitido, os autores devem considerar desempenho por sexo, idade, raça/cor/etnia, contexto socioeconômico, região geográfica, tipo de equipamento, protocolo de aquisição, prevalência da doença e aplicabilidade a populações brasileiras e latino-americanas.

Modelos de IA devem ser avaliados quanto à validade externa e ao risco de desempenho desigual em subgrupos clínicos relevantes.

 

12. Regras para revisores

Manuscritos submetidos, figuras, tabelas, suplementos, pareceres e correspondência editorial são documentos confidenciais. Revisores não devem inserir, em nenhuma hipótese, manuscritos não publicados ou materiais da revisão por pares em ferramentas públicas ou externas de IA.

A revisão por pares é uma responsabilidade humana especializada. Revisores não devem delegar à IA a elaboração independente de um parecer. Assistência limitada de IA para melhorar clareza ou gramática dos próprios comentários do revisor pode ser aceitável apenas se nenhum conteúdo confidencial do manuscrito for inserido na ferramenta e se o revisor permanecer integralmente responsável pelo parecer.

Qualquer uso substantivo de IA no processo de revisão deve ser comunicado ao editor.

 

13. Regras para editores e equipe editorial

Editores e equipe editorial devem preservar a confidencialidade e não devem inserir, em nenhuma hipótese, manuscritos não publicados, materiais de revisão por pares ou correspondência editorial em ferramentas públicas de IA.

Ferramentas de IA podem apoiar fluxos editoriais apenas quando confidencialidade, proteção de dados e independência editorial forem preservadas. Elas podem auxiliar em checagens administrativas, linguagem, conformidade com diretrizes de relato, triagem estatística, verificação de referências, preparação de resumos pós-publicação ou conteúdos de divulgação científica, desde que todos os resultados sejam revisados por humanos qualificados.

Decisões editoriais finais devem ser sempre tomadas por editores humanos. IA não deve ser usada como base única para aceitação, rejeição, seleção de revisores, julgamento ético ou determinação de má conduta.

 

14. Ferramentas de detecção de texto gerado por IA

Ferramentas de detecção de texto gerado por IA apresentam falsos positivos e falsos negativos, podendo penalizar injustamente autores não nativos em inglês ou textos submetidos à tradução e edição. Portanto, detectores de IA devem ser usados apenas como sinais auxiliares de triagem e nunca como prova isolada para rejeição, acusação de má conduta ou sanção editorial.

Casos suspeitos devem ser avaliados com devido processo editorial, solicitação de esclarecimentos aos autores e procedimentos compatíveis com recomendações de ética em publicação.

 

15. Prompts ocultos e manipulação do processo editorial

Manuscritos não devem conter texto oculto, comandos disfarçados, prompts invisíveis, texto em fonte branca, instruções em metadados ou qualquer conteúdo destinado a manipular ferramentas de IA, revisores, editores, sistemas editoriais, indexadores ou o processo de revisão por pares.

Tal conduta poderá ser considerada tentativa de manipulação do processo editorial e tratada como potencial má conduta em publicação.

 

16. Conduta diante de uso inadequado de IA

Uso não declarado, enganoso ou antiético de IA poderá levar a solicitação de esclarecimentos, correção do manuscrito, rejeição, retratação, expressão de preocupação ou comunicação institucional, conforme a gravidade e de acordo com os procedimentos de ética em publicação da revista.

A avaliação deve considerar intenção, extensão do problema, impacto científico, risco a pacientes, violação de confidencialidade, fabricação de dados, manipulação de imagem, referências falsas e reincidência.

 

17. Atualização da política

Como as tecnologias de IA e as normas de publicação científica evoluem rapidamente, esta política deve ser revista periodicamente pelo corpo editorial da ABC Imagem Cardiovascular, preferencialmente ao menos uma vez por ano ou sempre que novas recomendações internacionais relevantes forem publicadas.

 

Checklist operacional para submissão

 

 

Referências e documentos de apoio

1. International Committee of Medical Journal Editors. Recommendations for the Conduct, Reporting, Editing, and Publication of Scholarly Work in Medical Journals. Section V: Use of Artificial Intelligence in Publishing. ICMJE; 2023.

2. International Committee of Medical Journal Editors. Use of AI by Authors; Use of AI by Reviewers; Editors’ Role in Ensuring Responsible Use of AI. ICMJE; 2023.

3. Committee on Publication Ethics. Authorship and AI tools: COPE position statement [Internet]. COPE; 2023 [acesso em 2026]. Disponível em: https://publicationethics.org/node/111341

4. Zielinski C, Winker MA, Aggarwal R, et al. Chatbots, generative AI, and scholarly manuscripts: WAME recommendations. Med J Armed Forces India. 2024;80(1):1-4. doi:10.1016/j.mjafi.2023.12.003

5. Flanagin A, Bibbins-Domingo K, Berkwits M, Christiansen SL. Nonhuman “Authors” and Implications for the Integrity of Scientific Publication and Medical Knowledge. JAMA. 2023;329(8):637-639. doi:10.1001/jama.2023.1344

6. BMJ. AI use policy [Internet]. London: BMJ; [ano de publicação/atualização] [acesso em 2026]. Disponível em: https://linkatomic.com/es/que-es-el-da-y-el-pa-de-una-web/

7. Nature Portfolio. Artificial Intelligence: editorial policies [Internet]. London: Springer Nature; [ano de publicação/atualização] [acesso em 2026]. Disponível em: https://linkatomic.com/es/que-es-el-da-y-el-pa-de-una-web/

8. Elsevier. Generative AI policies for journals [Internet]. Amsterdam: Elsevier; [ano de publicação/atualização] [acesso em 2026]. Disponível em: https://linkatomic.com/es/que-es-el-da-y-el-pa-de-una-web/

9. Jackson J, Landis G, Baskin PK, Hadsell KA, English M. CSE Guidance on Machine Learning and Artificial Intelligence Tools. Science Editor. 2023;46:72.

10. Liu X, Rivera SC, Moher D, Calvert MJ, Denniston AK; SPIRIT-AI and CONSORT-AI Working Group. Reporting guidelines for clinical trial reports for interventions involving artificial intelligence: the CONSORT-AI extension. BMJ. 2020;370:m3164. doi:10.1136/bmj.m3164

11. Rivera SC, Liu X, Chan AW, Denniston AK, Calvert MJ; SPIRIT-AI and CONSORT-AI Working Group. Guidelines for clinical trial protocols for interventions involving artificial intelligence: the SPIRIT-AI extension. BMJ. 2020;370:m3210. doi:10.1136/bmj.m3210

12. Collins GS, Moons KGM, Dhiman P, et al. TRIPOD+AI statement: updated guidance for reporting clinical prediction models that use regression or machine learning methods. BMJ. 2024;385:e078378. doi:10.1136/bmj.e078378

13. Mongan J, Moy L, Kahn CE Jr. Checklist for Artificial Intelligence in Medical Imaging: A Guide for Authors and Reviewers. Radiology: Artificial Intelligence. 2020;2(2):e200029. doi:10.1148/ryai.2020200029

14. Tejani AS, Klontzas ME, Gatti AA, et al. Checklist for Artificial Intelligence in Medical Imaging: CLAIM 2024 Update. Radiology: Artificial Intelligence. 2024;6(4):e240300. doi:10.1148/ryai.240300

15. Vasey B, Nagendran M, Campbell B, et al. Reporting guideline for the early-stage clinical evaluation of decision support systems driven by artificial intelligence: DECIDE-AI. Nat Med. 2022;28(5):924-933. doi:10.1038/s41591-022-01772-2

16. Sounderajah V, et al. STARD-AI reporting guideline for diagnostic accuracy studies using artificial intelligence. BMJ. 2025;388:e080123. doi:10.1136/bmj.e080123

 

Nota: Foi utilizada a ferramenta ChatGPT 5.0 para fluência do texto, diagramação das referências e criaçào das figuras e diagramas. OS autores assumem a completa responsabilidade pelo conteúdo.

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